1 de fevereiro de 2018

A escolha de um PASTOR: princípios bíblicos e sugestões


Introdução:
       
Nós vivemos em tempos de transição, vê-se que as pessoas passam menos tempo em seus postos de atuação e há uma carência geral de efetividade e longevidade nos compromissos institucionais e relacionais em nossa sociedade. Em relação ao Ministério Sagrado não tem sido diferente, a falta de longevidade e uma real efetividade na igreja local são situações cada vez mais presentes. Os motivos para mudanças constantes são muitos, desde falta de vitalidade e amor ao que é sagrado e até mesmo uma filosofia comercial do Ministério. De qualquer forma cresce o número de “pastores de curto prazo” e sucessivamente o número de igrejas locais em sucessão pastoral.
        
     Essa mudança exige novas reflexões e traz desafios à teologia pastoral e a filosofia ministerial, e também reflexões por parte da igreja em relação às constantes transições que ela enfrenta. A triste realidade é que não há muitas lideranças em nossas igrejas bem preparadas para conduzir a transição.

    Nesse breve artigo quero instigar uma reflexão pensando na necessidade da igreja local. Eu reconheço que uma parte, talvez menor (pois a igreja tem sido generosa) dos pastores em transição, saíram de suas igrejas por questões de politicagem e outros problemas criados pela própria igreja e sua liderança, que as vezes é muito má. Por outro lado, “acho que talvez” os maiores problemas que causam a necessidade de saída e transição ministerial são criados pelos próprios pastores; quando há problemas (guerras) ou para uma boa parte deles, houve uma clara direção de Deus demonstrando que o tempo alí terminou. Bom! Seja qual for o motivo, a transição ministerial quer dizer que determinada igreja local está sem pastor. Agora a questão é: “Deus tem concedido pastores/mestres para sua igreja” (Ef 4.11) e o Espírito Santo tem “constituído pastores para cuidarem do Seu santo rebanho” (At 20.28), sendo assim nenhuma igreja; rica ou pobre, boa ou má, pode se dar ao luxo de ficar sem pastor. Deus sempre levantou e levantará pastores para sua Santa Igreja (Jr 3.15).

       Por essas razões bíblicas, quando uma igreja local fica sem pastor, é preciso por parte da liderança saber como conduzir o processo e quais os critérios bíblicos e sugestões da sabedoria divina para ESCOLHER UM PASTOR ou de forma mais técnica “QUE TIPO DE PASTOR INDICAR PARA A ELEIÇÃO”.

1. Reflexão inicial

     Minha sugestão é que logo no início do processo de sucessão, a liderança promova entre si uma reflexão baseada em algumas perguntas: Que tipo de pastor Deus quer para nós? Qual o tipo de pastor é mais adequado para uma verdadeira igreja de Cristo? O que a Bíblia diz sobre um pastor que agrada a Deus? Em minha denominação há orientações para sucessão pastoral? O que nossa liderança denominacional pensa sobre um pastor para nossa igreja? Como foi nosso relacionamento com o pastor anterior? Quais foram nossos acertos e erros? Como mobilizar a igreja local para buscar em oração um novo pastor?

     Essas perguntas nos ajudarão no processo de aproximar nossos corações do Senhor e Sua vontade e também perceber quando estamos próximos daqueles que estão sobre nós (nossa denominação) e nos ajudarão a perceber os sentimentos carnais e precipitados da liderança e da membresia.

       Há uma tendência pecaminosa em nossas escolhas ministeriais, daí a necessidade do nosso coração ser regido pela lei de Deus e pelos sábios conselhos de homens santos de Deus. É muito comum querermos um pastor que nos agrade; aquele que me abraça, me visita e come comigo assentado à mesa, vive sorrindo e contando piada engraçada. Queremos aquele que não nos confronta, que não quebra nossas perninhas com a vara e muito menos aquele que é apegado à disciplina. Percebe também uma proeminência de pastores carismáticos pastoreando igrejas tradicionais. Escolher um pastor conforme nossa imagem é muito cômodo e fácil; aliás pertencemos a uma cultura que historicamente não sabe eleger seus líderes.

2. Critérios bíblicos para escolher um pastor

     O perfil criado pela nossa tendência pecaminosa é o perfil de pastor que o dono da igreja "quer" para nós? Tenho plena certeza e convicção absoluta que não!

     Deus fala conosco que Ele quer um pastor "segundo o coração Dele" (Jr 23, At 20.17-29). No texto de Jeremias 3.15, Deus revela que ser segundo o coração Dele inclui ser um pastor que cuida do rebanho com sabedoria e inteligência. Sabedoria significa o temor do Senhor, andar com reverência (Hb 12.28), servindo de modo correto e agradável a Deus. A inteligência está ligada ao compromisso de conduzir o povo pelo reto caminho, seguindo a Palavra; talvez esteja ligado à responsabilidade de docência do pastor. Ele é mestre, prega a Palavra e não faz nada fora do que está escrito ((Ef 4.11; 1Cor 4.6; 2Tm 4.2). A maneira como cuida, prega, aconselha e governa é demonstrada pela inteligência.

     Deus quer um pastor íntegro, correto, protetor contra erros e heresias. Um pastor de oração e bíblico (At 6.4, 1Tm 5.17). A Bíblia revela que a prioridade suprema de um pastor é a oração, a pregação e a visitação; não é inventar atividades para diversão e muito menos bajular ovelhas mimadas e egoístas (At 20.20). Na escolha de um pastor é preciso investigar sua teologia prática, quais suas prioridades? Suas prioridades e filosofia ministerial se encaixam ao padrão bíblico?

     Segundo o Dr. Arhur Duck: "Se as atividades da igreja não servirem para cumprir Ef 4. 12-15 não servem para nada e não deveriam ser incluídas na programação da igreja". Precisamos de um pastor que faça o que Deus "quer" (1Pe 5.2) e não o que nós sonhamos como caprichos do nosso ego. Um pastor assim é digno de honra (1Tm 5.17), de respeito, obediência e imitação (Hb 13.7).   

     Um bom pastor segue as palavras de 1Tm 4.6; alimentando aos irmãos com palavras edificantes e boa doutrina e não seguindo modismos ou coisas que não servem para nada (1Tm 4. 7-11). Precisamos de um pastor que preside e governa bem a igreja (Rm 12.8; 1Cor 12.28; 1Tm 3.4, 5.17), que tenha a igreja como extensão do seu lar. Esse governo significa: supervisão, cuidado e disciplina. Em casa ele supervisiona; tendo a liderança em suas mãos. Ele cuida, amando a esposa e cumprindo suas obrigações no serviço pesado (1Pe 3.7) e ainda mantém os filhos em disciplina.

     Precisamos de um pastor correto e justo nas relações e administração dos negócios, alguém com boa reputação na sociedade (1Tm 3.7). O dinheiro não pode fazer seus olhos brilharem e também não pode ser prioridade na escolha de uma igreja (1Tm 6.10). Você quer conhecer os valores de um pastor? Descubra o que lhe tira o sono e o que lhe traz gozo ao coração. Ele não dorme porque lhe falta dinheiro? Por que não tem um bom carro ou não viajou no último ano? Ou ele não dorme porque deseja ver Cristo formado nas pessoas (Gl 4.19) ou porque há heresias rondando a igreja? Ou porque o culto foi antropocêntrico (um show)? Todas essas coisas e mais outras revelam os valores e do que o coração do pastor está cheio.

     Por último, um bom pastor ama a Igreja de Deus. A Bíblia diz que o “Espírito Santo constituiu pastores para pastorear o rebanho que Jesus comprou com seu próprio sangue” (At 20. 28). Sendo assim, nada é mais importante do que a igreja local e o ministério se confunde com a vida do pastor, com seus sonhos e aspirações. Por isso, ele ama a igreja local e assim como Jesus dá a sua vida pela igreja e a ama (Ef 5.25), o pastor se dedica ao Ministério em amor.

3. Nossas atitudes para com o pastor eleito

      Mediante essas orientações de Deus suplico em nome de Cristo Jesus que nós, membros da Sua Igreja sigamos Hb 10.24 e 1Ts 5.12-13; considerando, amando e congregando (Hb 10.25) em apoio ao nosso pastor e nossos irmãos. Também devemos ser leves, cordiais e amigáveis com nossos pastores, isso para que cuidem de nós com alegria e tranquilidade, não há nada pior do que ter um pastor gemendo devido à nossa desobediência e desrespeito (Hb 13.17).

     Não aceite acusação e nem fofoca contra o pastor; isso é pecado, exceto quando há desvio doutrinário e moral (1Tm 5.19; 3Jo 1.9-10). E mesmo nesses casos há um processo legal; exigindo provas, testemunhas e oportunidade de defesa, assim sendo ele será julgado pelas autoridades eclesiásticas e não por nós individualmente.

   Por último, devemos ser generosos; seja como membros ou administradores. A Bíblia ensina que o pastor é digno de receber bem pelo seu nobre trabalho como Ministro da Palavra (1Tm 5.17-20) e não é correto que ele faça trabalhos fora ou bicos, pois o Senhor ordena que como vocacionado ele "viva do evangelho"; essa ordem deveria nos constranger para cuidarmos muito bem dos nossos pastores (1Cor 9.14).[1] O pastor que segue a Bíblia entrega sua vida no Ministério, ele sente o peso das demandas e para cumprir sua responsabilidade como pastor e evangelista se dedica integralmente, esse irmão é digno de ser bem cuidado e suprido em todas as suas necessidades.

4. A Lealdade do Pastor/Presbítero e Missionário(a)

    A nossa identidade como indivíduos cristãos está diretamente associada ao nosso compromisso e fidelidade à Cristo. É a Pessoa e a doutrina de Cristo que determinam quem somos como pessoa, o que pensamos e como nos relacionamos com Deus. Essa identidade é inegociável, pois ela explica nossa razão de ser como ser-humano cristão e aponta para o que seremos na eternidade em Cristo. Acima de todas as coisas o pastor precisa ser leal a Cristo e buscar ser parecido com Ele.

     Mas há um outro aspecto nessa relação, pois Cristo se manifesta e faz Sua vontade no mundo por meio da Igreja (Ef 1.22-23). Daí o servo leal a Cristo também deve dar a vida em prol da Igreja e essa Igreja está no mundo de forma visível, militante e institucional. No serviço da igreja em prol do Reino há a necessidade de lealdade, tanto daquele que serve como obreiro local, bem como daquele que representa essa igreja no campo (missionário).

     A lealdade institucional. Devido ao caráter visível, organizacional e institucional nosso compromisso também é como e com o corpo de Cristo que está em peregrinação nessa terra. Daí a importância em manter comunhão com irmãos de outras instituições e estender a destra do companheirismo para o serviço do Reino. Essa dimensão é mais terrena e institucional. Ao longo do tempo pela exigência da peregrinação nesse mundo foi imposto a nós e criado para nós um sistema de relacionamento social. Talvez em grande medida, uma imposição necessária do estado/nação, servindo como ministro de Deus (Rm 13), para organizar nossas relações, reprimir o pecado e exigir um senso de direção e propósito para tudo quanto fizermos nessa presente existência.

     É assim que vejo a importância da denominação e sua razão de ser no mundo de Deus. Como a denominação é uma instituição social, para o bem comum e progresso do povo de Deus, ela carece e sobrevive através da obediência e lealdade dos seus membros. Seus membros foram incluídos voluntariamente na denominação, isso aconteceu porque se sentiram bem, foram afetuosamente supridos e de alguma maneira perceberam algum senso de propósito. Ninguém os forçou ou induziu no processo de filiação, e com a consciência livre assumiram um compromisso ou até assinaram um documento que rege esse compromisso.

     Daí por diante as autoridades eclesiásticas legalmente constituídas confiaram nessas pessoas e a elas ofereceram através de suas leis direitos e deveres. Esse compromisso assumido também passou a produzir confiança e amor mútuo em todos os envolvidos nesse pacto institucional. Passamos a ser um time, agora lutamos pelo Reino como cristãos e também como membros de uma organização, bem ajustada e que caminha para uma mesma direção.

     Agora juntos, recebemos uma tradição daqueles que serviram nessa instituição antes de nós, eles nos deixaram um legado e com isso, passamos a ter costumes, manias e sabemos como é porque fazemos as coisas. Temos segurança para juntos tomarmos decisões e sabemos que nossa denominação é um lugar seguro para nossos filhos e netos, porque cremos que ela é a Igreja de Deus, continuará sendo e pelo apoio dela, pelo alimento que recebemos dela nos encontraremos com Cristo. Essa instituição é nossa casa, seu povo é nosso povo, seus acertos e erros, são nossos acertos e erros. Por tudo isso meus irmãos é que precisamos de pastores conservadores, homens que amam nossa igreja, que se identificam com ela, que choram por ela e que lutam em prol dela. As ações que prejudicam esse compromisso, a deslealdade e o não cumprimento das decisões e normas fazem a instituição sofrer, gemer e se tornar um lugar inseguro.

     Divisão é pecado grave. Por essa razão, fundamentado na Escritura é que tenho plena consciência que a divisão é um pecado gravíssimo, que desviar nossos costumes e seguir manias do quintal vizinho e pior ainda não seguir a Bíblia e nossos documentos são afrontas e atitudes inaceitáveis para um pastor (Rm 14.22). Sempre é preciso lembrar que facção é uma obra da carne que ofende a Deus (Gl 5.20). Facção é a criação de um grupo/organização que se rebelou contra um grupo majoritário que exercia autoridade sobre eles, é aquilo que o Rev. Robinson Cavalcante chamava de denominacionalismo (criar uma nova igreja sem a benção da anterior).

   Quando um pastor conduz sua igreja local contrariando sua denominação e à revelia ou forma um grupo dissidente esse individuo está criando uma facção e deverá ser considerado um rebelde. Nunca convide ou eleja um pastor envolvido em divisão e nem mesmo flerte com pessoas assim, é um sacrilégio ao serviço do Reino.

5. Há dois tipos de pastores que devem ser evitados nesse processo:

     O pastor populista. O populismo é uma filosofia política bem presente no ministério de pastores evangélicos no Brasil. Consciente ou inconsciente há uma boa quantidade de religiosos que adotam práticas e a postura do populismo. O populismo é uma filosofia que demonstra “apego e compromisso” com o povo, com as massas. É um tipo de liderança que trabalha através de ações e projetos que suprem os anseios do povo; segue mais aquele ditado popular: “a voz do povo é a voz de Deus”. O lema do populista, seja ele político ou líder religioso é: “vamos cuidar das pessoas”.

   Devido a esses pressupostos, os pastores populistas não se comprometem com a verdade absoluta (normalmente são relativistas), nem com a autoridade final da Bíblia e muito menos com a disciplina. Esse tipo de pastor é “amigo de todos”, não se indispõe com ninguém e se incomoda com as normas estabelecidas e a boa ordem. É notável que o pastor populista não tem interesse pelo rebanho, ele se preocupa apenas consigo mesmo e usa o sistema para obter vantagens e em alguns casos para se sobressair em eleições. É certo que o pastor populista sempre terá vantagens sobre o conservador em eleições, pois ele é “amado por todos”. “Profeta não se reelege”, como diz o ditado!

     A maior desgraça de todas é que esse tipo de líder, por sua ousadia e falta de ética, sempre se tornará uma sombra para os bons líderes. Basta olhar a política brasileira e a história de algumas igrejas (em todas as denominações) que você encontrará a sombra bem nítida de alguns pastores populistas.

    O pastor desleal – chamado Diótrefes. Meus irmãos, um dos assuntos mais importantes da Bíblia é a unidade da Igreja. Apesar da Igreja ter muitas partes e membros, ela representa um só corpo (1Cor 12.12). É uma unidade de fé, simbolizada pelo batismo e vivenciada na comunhão da Mesa do Senhor (1Cor 10.21). O pastor deve ser o guardador dessa unidade, assim como o guardador da pureza doutrinária e moral. Que Nosso Deus promova no meio de nós pastores varonis (1Cor 16.13), fiéis a Cristo e sua Palavra e também fiéis e leais aos seus colegas e irmãos de lida. Um dos pontos mais importantes da vida de um pastor leal é o amor à família e o respeito às instituições e autoridades constituídas por Deus.

     Alguns sinais bem simples nos ajudam a identificar pastores desleais: não se submetem a decisões de seus líderes; desprezam documentos confessionais e administrativos; diminuem a importância da denominação; rejeitam o nome da organização que faz parte, criando um nome próprio; não participa e nem mobiliza seus membros para atividades ou eventos denominacionais; sua igreja local é muito diferente das principais igrejas da denominação; o pastor se incomoda demais com críticas e não aceita sugestões; valoriza uma não identidade para ficar livre e fazer o que quer; convida mais pastores de outras denominações do que colegas institucionais. Nunca mais esquecerei a fala de um pastor batista: “Que a Convenção batista vá às favas”! Que triste! E tudo isso porque ele estava neopentecostalizando a igreja.

     As colunas da Igreja, Pedro e Paulo têm uma palavra sobre esses pastores: “Nós vos ordenamos, irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que ande desordenadamente e não segundo a tradição que de nós recebestes” (2Ts 3.6) e “Escrevi alguma coisa à igreja; mas Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida. Por isso, se eu for aí, far-lhe-ei lembradas as obras que ele pratica, proferindo contra nós palavras maliciosas. E, não satisfeito com estas coisas, nem ele mesmo acolhe os irmãos, como impede os que querem recebê-los e os expulsa da igreja. Amado, não imites o que é mau, senão o que é bom. Aquele que pratica o bem procede de Deus; aquele que pratica o mal jamais viu a Deus”.

     O contrário disso tudo e da firmeza que precisamos ter com gente assim é que aqueles irmãos que seguem a Palavra, se esforçam pelo bem da Igreja e nos oferecem a destra de comunhão, precisam ser amados, respeitados e preservados. Nós precisamos dar a vida e servir lavando os pés daqueles homens de Deus que pelo amor a Cristo e o bem da Igreja se gastam e sofrem pela causa. Esses homens devem ser amados e cuidados em todos os sentidos.

6. O pastor auxiliar e/ou outros cargos de confiança

     Em uma república há cargos eletivos e de confiança. Os cargos eletivos são representativos do povo e somente pelo próprio povo ele pode ser destituído e no caso de crime o legislativo pode destituí-lo dentro daquilo exposto na lei. Aquelas pessoas que não foram eleitas pelo povo exercem cargos de confiança, no caso quem trabalha em diretorias, se submetem ao conselho administrativo e os outros exercem cargos de confiança dos eleitos ou dos diretores, estes também estão atrelados ao mandato do conselho. Se são cargos de confiança suas funções são determinadas pelos eleitos ou diretores e seu mandato está atrelado aos deles.

     As denominações com governo democrático representativo (ex: Igreja Cristã Evangélica do Brasil, Igrejas Presbiterianas, Igrejas Reformadas, Igrejas Congregacionais), precisam considerar essa política de governo. Agora as Igrejas episcopais (ex: Luterana, Metodista, Católica, Pentecostais) todos os cargos e funções são de confiança, daí todos se submetem ao presidente ou Bispo Primaz. Se a pessoa que se submete a cargo de confiança não quiser ser atrelada à autoridade eleita ela precisa buscar cargos eletivos e não de confiança.

     Por essa razão, nas Igrejas com governo democrático representativo os pastores auxiliares são cargos de confiança do pastor eleito e todas as lideranças ministeriais também. Pode haver na estrutura denominacional alguma orientação estatutária sobre a autoridade do Conselho que também é eleito. O que não é coerente com essa forma de governo é a formação de um colegiado eleito (governo episcopal) ou submeter um pastor auxiliar ou missionário à eleição. O que quero dizer é que no governo democrático representativo todas as lideranças não eleitas devem se submeter à autoridade eleita e a ela auxiliar para o bom relacionamento e trabalho.

7. Precisamos de pastores CONSERVADORES

     Nos últimos dias tenho levantado a bandeira e feito “propaganda”, anunciando por todos os cantos que as denominações evangélicas precisam de pastores conservadores.

    Não confunda conservador com intransigente, mau-educado, grosseiro, ditador, ranzinza, fundamentalista ou algo semelhante. Como conservador me refiro aos pastores que seguem uma filosofia ministerial fundamentada na Bíblia e uma política eclesiástica em prol da comunidade, seguindo valores absolutos e as tradições herdadas por essa comunidade a qual serve. O pastor conservador respeita as autoridades constituídas e busca a qualidade institucional à luz da Palavra; respeitando o próximo, seguindo a unidade e defendendo a verdade em amor. Resumindo, ele é ortodoxo na doutrina e conservador na administração e liderança. Seu principal interesse é fazer a vontade de Deus e não fazer a igreja crescer independente dos meios.  

     Suas marcas são: a não centralização do poder, fazendo com que as decisões e ações não girem em torno de si mesmo. Ele sabe que uma liderança centralizadora não corresponde aos anseios da congregação e também sabe que é dever de todo líder cristão seguir as autoridades e decisões superiores e ainda compartilhar responsabilidades com aqueles que Deus chama.

   O pastor conservador também desenvolve sua liderança pelas tradições recebidas. Ele se utiliza dos erros e acertos do passado e de costumes dos seus antecessores como formas de conhecimento, fazendo uma leitura com o conselho ou mesa administrativa para planejar o presente e com vistas no futuro.

     O pastor conservador ama a igreja, assim como ele ama sua família. Ele é conservador porque defende a liberdade de expressão e o direito de todo individuo, cristão ou não e luta pela causa do necessitado seguindo o exemplo do seu mestre e dos seus apóstolos. Essa filosofia o leva ao diálogo e o respeito às diferenças, bem como a moderação com os irmãos e colegas e a mão de ferro contra os rebeldes e orgulhosos. Todo homem de Deus precisa estar aberto para ser corrigido e lutar para a humilhação do seu ego e mortificação da sua carne.

     Ele é um homem confiável, que tem palavra e não faz acordos politiqueiros e quando cai, por questão de consciência cristã ele se humilha em busca do perdão divino e se submete a disciplina imposta para punição e correção. Esse pastor é pecador, comete erros e está em processo de transformação espiritual. Porém ele é o oposto do liberal, que é libertino; mas também se opõe ao moderado, que é alheio e da filosofia do “deixa pra lá”.  

Conclusão:

     O desejo do meu coração e minha oração é que nossas igrejas locais, independente da denominação, tenham pastores segundo o coração de Deus e que essas igrejas cresçam em todas as coisas para a glória do Seu cabeça e chefe; Nosso Senhor Jesus Cristo.





[1] Obs: No texto grego há a ideia de continuidade; ou seja, o que prega o evangelho vive sendo sustentado pelos recursos do próprio evangelho.

17 de fevereiro de 2017

AS DISCUSSÕES TEOLÓGICAS


Introdução:

Em tempos em que a comunicação é vibrante, as informações são rápidas e de fácil acesso e as redes sociais se tornaram meios para divulgar ideias e expressar sentimentos, vê-se que cresce as disputas e discussões no âmbito político, filosófico e teológico. Em relação as discussões teológicas acredito que há muitas contribuições saudáveis e importantes, porém ao mesmo tempo encontramos exageros, desrespeito e ofensas constantes. Talvez, por isso cresce o número de pessoas desanimadas e a presença daqueles que eu chamo de “moderistas”. Sendo assim, cheguei à conclusão que um breve artigo sobre discussão teológica poderia contribuir para uma pequena reflexão sobre o assunto.

1. No campo da teologia a discussão é inevitável e importante.

O cristão é chamado por Deus para buscar o conhecimento (Pv 2; 2Pe 3.18). Na medida em que seu conhecimento sobre Deus aumenta, o cristão começa a pensar em suas crenças de forma inteligente e formal. Como o cristianismo não é uma religião folclórica é necessário formular convicções e práticas religiosas para devoção, serviço cotidiano e influência da sociedade. Isso é teologia! A questão é que para firmar suas convicções e fazê-las conhecidas é preciso testá-las, receber críticas e fazer uma auto-análise constante. Em nosso caso, isso é feito através da interpretação das Escrituras, da tradição e da aplicação prática no ministério da igreja e na evangelização mundial. Todo esse labor e as convicções formuladas serão expostas em pregações, palestras, artigos, conversas informais e postagens em redes sociais. De um jeito ou de outro, independente do lugar onde estamos, em algum momento as nossas crenças e pressupostos teológicos e filosóficos serão conhecidos e até mesmo quando escondemos ou tentamos “deixar pra lá”, nós estamos revelando pressupostos.

Essa exposição e divulgação pública de ideias geram as discussões. Quando alguns “indivíduos desceram da Judéia” e começaram a “ensinar aos irmãos” a obrigatoriedade da circuncisão para a salvação foi que Paulo e Barnabé promoveram “não pequena discussão”. Então, essa discussão foi levada aos apóstolos e presbíteros que após “examinar a questão”, permitiram um “grande debate” (At 15. 1-7). Essa grande discussão foi teológica, mas outra situação pode gerar discussão; as atitudes hipócritas e dissimuladas de irmãos por exemplo (Gl 2.11-21). A discussão teológica sempre esteve presente na história da igreja, tenho lido dezenas de cartas produzidas no período da Reforma e os constantes debates públicos e em sínodos eclesiásticos. Muitos documentos e pensamentos teológicos que saíram dessas discussões se tornaram confissões, catecismos e pontos teológicos importantes para nossa doutrina e defesa da fé.

2. A discussão não é o problema, mas o trato sim.

O problema é que nossos pressupostos e fortes convicções às vezes são dominados por nossa natureza pecaminosa, daí a falta de sabedoria e domínio próprio que permitem ao cristão desfrutar dos prazeres da carne e com isso se tornar um instrumento de “guerras e contendas”, matando e invejando sem nada obter (Tg 4. 1-3). O trato cristão em questão de discussão teológica tem suas próprias regras (mandamentos recíprocos), mas também é valioso pensar nos princípios de integridade intelectual e a razão de ser da discussão (você deseja dialogar, crescer ou aparecer?). Nessas questões gosto muito de pensar que a discussão teológica é muito proveitosa e um recurso fabuloso para que a graça de Deus se manifeste na busca pelo conhecimento e no aprendizado mútuo e também no tratamento do nosso caráter pelas diferenças nas diversidades e multiforme sabedoria divina (Ef 3. 10). O contrário disso é que não há sabedoria na ofensa e muito menos louvor em denegrir a integridade de pensamento daquele que é irmão em Cristo.

Nossa condição humana e pecaminosa nos humilha e nos coloca frente a frente com a diversidade naqueles assuntos não essenciais. Nossas posições teológicas são carregadas de pressupostos, pormenores e particulares. Nas questões particulares deveríamos promover reflexões e diálogos para que juntos pudéssemos dizer: “penso que essa teologia está mais perto das Escrituras”. Porém, não sendo inspiração e autoridade ela deverá nos humilhar, pois Deus encerra a produção teológica como possíveis e não como verdade plena; essa só é encontrada na própria Escritura e nas teologias gerais ou essenciais. Creio que atribuir verdade plena a uma linha teológica é arrogância e falta de sabedoria e militar sem cordialidade é ultrajante, pois é possível ter convicções e ser conservador mantendo a paz e comunhão com as diferenças. Podemos atribuir inconsistência a outra interpretação (se for possível), mas não heresia e ainda podemos elevar o tom para uma discussão fervorosa, mas sempre excluindo a ofensa e o desrespeito. No caso de heresias, o assunto deve ser levado à concílio (At 15), nesse caso as denominações possuem seus modus operandis para isso e devem ser respeitados e acatados por todos aqueles que subscrevem seus documentos e confissões.

3. Convicções e Pressupostos.

Ser convicto e firme é uma virtude cristã. O que precisamos é saber discernir nossas particularidades e com nossas convicções argumentar e dialogar. As particularidades são tentativas de compreender a vontade de Deus e como isso é prática constante de todo o homem piedoso essas particularidades se tornam métodos e lentes para nossa teologia e leitura das Escrituras. No exercício da piedade recebemos influências dos nossos mestres, que pelo amor à verdade imprimem em nós suas interpretações e métodos para que com reverência cheguemos a Deus através das Escrituras. Mesmo sem condições de discernir toda a verdade dos pormenores que ficam escondidos em Deus, eles desejam e se esmeram para nos formar a imagem de Cristo e nos reformar na alma pelo refrigério da perfeita lei de Deus. Essas coisas também aprendemos com os livros que com esforço e suor esses mestres escrevem na presença de Deus. Por isso, notabilíssimos irmãos, mantenhamos firmes nossa confissão, defendamos o verdadeiro evangelho e a Pessoa do Nosso Senhor e até sua bendita volta busquemos nos aproximar das Escrituras com nossas teologias, mas sempre preservando o vínculo da paz, o respeito e a comunhão com todos os que amam a Cristo e Sua Palavra.

Tenho crido que as diferenças de opiniões nas particularidades por possíveis interpretações são benefícios de Deus para promover em nós humildade e unidade. Ele nos humilha em nossas limitações fazendo nos confusos e colocando-se como o único verdadeiro e Senhor da verdade (Rm 3. 1-8). Não podemos ser “demasiadamente justos e nem exageradamente sábios” (Ecl 7. 16), mas deveríamos ter nobreza em considerar o outro “superior a nós mesmos” (Fp 2. 3) e mesmo no exercício da docência, como mestres da Palavra, “lavar os pés dos nossos irmãos” (Jo 13. 1-20), assim como nosso Reverendíssimo Senhor fez. 

4. Nosso campo de batalha.

“Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim, poderosas em Deus, para destruir fortalezas; anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Coríntios 10. 4-5). Nosso adversário é o Maligno, sua principal estratégia desde o início é formular argumentos falaciosos, deturpar a verdade de Deus e construir estruturas religiosas e filosóficas anticristãs. Por essa razão, todas as áreas da teologia, a filosofia e a apologética são instrumentos essenciais para a batalha espiritual e o cumprimento da missão redentora.

Aqui nós temos um vasto campo de batalha em comum. A razão disso é o crescimento das influências do liberalismo em nossas igrejas e seminários e a forte influência da praga neopentecostal em muitas igrejas, no caso da minha denominação a erva daninha neopentecostal é o maior problema. Daí meus irmãos, a importância de sermos um bom tribunal de Cristo (1Cor 6. 1-11); condenando e denunciando publicamente suas heresias e imoralidades.

Há dois tipos de gente aqui, causando estragos em nossas igrejas. a) aqueles que causam desordem por sua insubmissão e divisões; esses são desleais, trazem costumes antibíblicos para nossas igrejas, desobedecem normas e decisões e quando são julgados ou denunciados, convencem suas igrejas com seus erros e tiram as igrejas de suas denominações, se tornando após isso soberanos e livres de autoridades superiores, são os Diótrefes de hoje (3Jo 9-11). b) aqueles que afastam nosso povo do verdadeiro culto a Deus; esses introduzem superstições e desordem com seus elementos de culto que somente servem para a idolatria, diversão e entretenimento dos bodes (Spurgeon) e ainda oprimem com seus títulos e exploração ou com a libertinagem dos antinomistas; alimentando a informalidade, anulando a reverência do culto solene e desprezando o Dia do Senhor.

Nesses casos nossas igrejas precisam de uma boa ordem e disciplina. Concordo plenamente com os Reformados quando definiram a disciplina como uma das marcas da verdadeira igreja. A falta de disciplina para os filhos de Deus (1Cor 11.32; 2Tm 2. 24-26; Hb 12. 4-13) é uma clara demonstração de falta de amor da igreja e um desleixo com o caráter de Cristo em formação em cada um de nós; e a falta de punição para os impenitentes é falta de zelo e compromisso com o juízo de Deus, é uma ofensa ao Senhor, pois mancha seu precioso Nome e santidade (Mt 18.17; Rm 2. 21-24; 1Cor 5. 1-13). Esses homens que vivem na imoralidade, ensinam heresias e demonstram intenções destrutivas devem ser julgados e expulsos da igreja. O Apóstolo nos dá uma lista de situações em que os homens maus devem ser punidos (1Tm 1.20; 4. 1-11; 6. 3-10; Tt 3. 10-11). Talvez como nunca antes, precisamos que Deus levante em nossas denominações em geral e na política uma liderança conservadora, tanto na doutrina, como no trato administrativo e disciplinar.

5. Moderismo ou Moderação.

A moderação é uma disciplina espiritual e indispensável nas discussões teológicas, a qual o cristão utilizando do discernimento que julga todas as coisas se domina e através do conhecimento e sabedoria promove crescimento, tanto para si mesmo no poder do Espirito e da Palavra, como para aqueles que fazem parte do seu convívio social. Ter moderação ou ser moderado no sentido bíblico não é o mesmo que ser moderista (é um neologismo).

Tenho chamado de moderista aquelas pessoas que seguem os princípios filosóficos dos modernistas do século XX. Esses permitiram a entrada dos liberais nos seminários e universidades e seguem aquela ideia do “deixa pra lá”. Não sou simpatizante dessa filosofia e nem de seus pressupostos, são muito abertos e praticistas. O moderista surfa na onda do essencialismo ou usa argumentos do biblicismo seitário, ou seja, ele super valoriza aquilo que é essencial, por isso se incomoda com posições firmes, com assuntos históricos, culturais e com uma leitura teo-referente da realidade e ainda não se indispõe com ninguém (exceto com os conservadores). Os moderistas normalmente seguem o princípio católico normativo (Richard Hooker) para a vida cristã e o culto – esse princípio diz: “se uma prática não for proibida pelas Escrituras, qualquer um e igreja está livre para usá-la e nortear a vida do cristão”. Com isso, eles negam o princípio protestante da Confissão de Westminster: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as cousas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou esta expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela”; como explica Warfield: “É requerido que os homens creiam e obedeçam não somente o que é expressamente declarado na Escritura, mas também no que pode ser lógica e claramente deduzido dela”. Os socinianos e arminianos antigos confinavam a autoridade das Escrituras apenas às suas asseverações literais. Com isso, alguns negam a doutrina da Trindade, imortalidade da alma, decretos de Deus, pacto das obras, etc; e rejeitam o princípio regulador do culto.

Esse princípio usado pelos moderistas também promove o sincretismo cultural, elevando a normalidade o que é mundano ou liberando a igreja para fazer o que quer (libertinagem). Tenho ouvido muito a frase: “posso fazer, pois a Bíblia não proíbe” ou “isso não está na Bíblia”. Minha pergunta é; não deveria ser o contrário? O silêncio de Deus é um salvo conduto ou um não? Se tal prática não é clara e nem pode ser deduzida será que agrada a Deus? Não seria perigoso relativizar a vida cristã e tornar os aspectos da vida e da igreja subjetivos? Já sei o que vão dizer meus amados irmãos: “Você é LEGALISTA”!!!! Fique tranquilo, pois creio na salvação somente em Cristo por meio da graça e no terceiro uso da lei apenas como um meio do Espírito santificar o crente. Penso assim porque sou protestante e creio firmemente na suficiência das Escrituras e sua absoluta autoridade sobre a igreja e o crente.

Em relação moderação há alguns textos bíblicos que a colocam como um requisito fundamental da vida cristã e muito mais para o exercício do ministério sagrado. “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Rm 12.3). “Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação”. “... fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo...” (1Pe 3.16).

A moderação é um meio para aplicar o “vínculo da paz” e também despertar reflexão sincera e decisões verdadeiras. Um homem com moderação sabe que algumas atitudes poderão ser úteis nas discussões teológicas: Não se concentre em seus próprios desejos e aspirações, nós fomos chamados para buscar sempre a glória de Deus e o que é próprio do seu Reino e vontade; reconheça que você é pecador e cuide para tirar “a trave do teu próprio olho e somente depois, ainda com graça e misericórdia, cuide para tirar a trave do olho do teu irmão (Mt 7. 3-5); considere se vale realmente a pena lutar por isso; ignore ofensas pequenas e mantenha a cordialidade e se retrate quando errar; interprete o que escuta e lê, com muito cuidado e olhando o contexto; “fale os oráculos de Deus” e diminua suas próprias opiniões, sempre demonstrando seus pressupostos e método adotado; abra mão dos seus direitos, um juiz chamado Antonin Scalia disse: “O que é lícito nem sempre é correto, o que é moralmente aceito nem sempre é adequado segundo a Bíblia e há situações em que o exercer o direito é realmente errado e destrói vidas e corações”; trate seu coração, pois segundo a Bíblia os conflitos vem de lá (Tg 4. 1).

Conclusão:

Por todas essas coisas, vamos lutar para que nossas diferenças de opiniões contribuam para a unidade e humildade dentro da diversidade. No corpo de Cristo um é reformado, que bom está mais próximo das Escrituras; porém que tipo de reformado? É mais calviniano ou puritano? Supralapsarianista ou infralapsarianista? Compatibilista ou incompatibilista? De 5 ou 4 pontos? Ou como o Packer que não gosta muito disso (é muito limitado isso)? Neocalvinista ou neopuritano? Outro é dispensacionalista; você é dispensacionalista? Tá! Mas é clássico ou revisado? Normativo (existe?) ou Progressista? Se é dispensacionalista, é antinomista (credo) ou crê no terceiro uso da lei como meio de santificação? Outro ainda com muito amor e piedade consegue ser arminiano. Se é, segue o arminianismo de coração (mais bíblico) ou de cabeça (sai fora desse seu liberal)? E missões? Crês no conceito reformado e tradicional de missões? Ou aderiu a moda de igreja missional? Ou milita na missão integral (tem gente muito boa aqui)? Gosta do movimento de Lausanne? Deveria, pois seus documentos são muito bíblicos.


Entendeu como precisamos da tolerância cristã e misericórdia de Deus? Que Deus nos ajude!!!!!!  

6 de dezembro de 2016

O CRISTÃO E A TATUAGEM

Introdução:

Nos últimos anos a tatuagem deixou de ser um assunto periférico ao cristão e passou a ser um problema a ser discutido. Isso se dá porque aumentou consideravelmente a propaganda, seja por meio dos tatuadores ou de pessoas famosas, e também tem crescido o número de jovens em nossas igrejas aderindo a essas marcas no corpo. Ao mesmo tempo em que cresce essa prática há um certo receio ou medo em líderes cristãos em se posicionar, pois qualquer posicionamento causará reações, seja de um lado ou de outro. Bom! Como já é do conhecimento dos meus leitores não sou de ficar em cima do muro, minha personalidade conservadora não me permite, me deixando em maus lençóis com aqueles mais moderados e liberais. É preciso dizer também que não estou fechado nessa questão, posso ser convencido pelas Escrituras ou pelo senso comum de que estou equivocado e, ainda tenho refletido em relação a “tatuagem inocente”[1] como uma possível exceção. Mas, vamos entrar na brecha e instigá-los nessa questão.

1. Breve História – para o pressuposto histórico/antropológico

Segundo as informações do Wikipédia há “provas arqueológicas que afirmam que as tatuagens foram feitas no Egito entre 4000 e 2000 a.C. e também por nativos da Polinésia, Filipinas, Indonésia e Nova Zelândia (maori), que tatuavam-se em rituais ligados a religião”.[2]Também é relatado que o pai da tatoo “foi o capitão James Cook (também descobridor do surf), que escreveu em seu diário a palavra "tattow", também conhecida como "tatau"(era o som feito durante a execução da tatuagem em que se utilizavam ossos finos como agulhas e uma espécie de martelinho para introduzir a tinta na pele)”. Com a circulação dos marinheiros ingleses a tatuagem e a palavra tattoo entraram em contato com diversas outras civilizações pelo mundo novamente. Porém, o governo da Inglaterra adotou a tatuagem como uma forma de identificação de criminosos em 1879; a partir daí a tatuagem ganhou uma conotação de fora da lei no ocidente”. Tanto pelo uso, bem como pela a adoção em grupos marginalizados, a tatoo passou a ser um símbolo de identificação cultural em todos os lugares do ocidente. No oriente ainda é possível encontrar significados símbolicos mais tribais e ligados a família, casamento, etc; mesmo que em alguns casos ainda encontramos símbolos religiosos.

Segundo um dos sites mais importantes de tatoo, o “Mundo das Tatuagens: “A tatuagem surgiu primeiramente entre tribos e clãs, como fator distintivo de grupo. Estima-se que isso ocorreu há pelo menos 3500 anos atrás. Inclusive, foi comprovada uma tatuagem em uma múmia do século VII dos nossos tempos e há ainda quem diga que é um sintoma da modernidade. Depois, com as evoluções sociais e da própria tatuagem a marca passou a ser o que é hoje; ou seja, mais uma expressão da personalidade, uma marca particular do indivíduo”. Essa expressão da personalidade representa: “transformar-se em guerreiro; tornar-se sacerdote; tornar-se rei; casar-se; celebrar a vida; identificar os prisioneiros; pedir proteção ao imponderável; garantir a vida do espírito durante e depois do corpo”.[3]

Na revista Galileu temos alguns estudos que identificam a tatuagem como: “o uso para identificar bandidos e enfeitar poderosos; para juntar tribos e afugentar inimigos; para mostrar preferências e esconder imperfeições” e a mesma revista traça um panorama histórico revelando que:

“Entre 2160 e 1994 a.C. múmias de mulheres egípcias, como a Amunet, possuíam traços e inscrições na região do abdômen; Entre 509 e 27 a.C, os imperadores romanos determinavam que para não serem confundidos com súditos mais bem afortunados; prisioneiros e escravos deveriam ser tatuados; Em 1600 com o fim das guerras feudais no Japão, os serviços dos samurais tornaram-se desnecessários. Surge, então, a Yakuza, a máfia japonesa; Em 1769 na expedição à Polinésia, o navegador inglês James Cook nota a tradição local de marcar o corpo com tinta. Na língua local, chamavam isso de "tatao"; Em 1942 durante a Segunda Guerra, os nazistas tatuavam um número no corpo dos judeus para identificá-los como prisioneiros nos campos de concentração”.[4] 

Em outras pesquisas como nos sites: remoção de tatuagem, mundo estranho, Brasil escola e outros com menos importância iremos encontrar relatos demonstrando que a história da tatuagem sempre esteve e ainda está relacionada com práticas como símbolos religiosos, marcas de prisioneiros, algo relacionado a sensualidade ou outras marcas pagãs e rebeldes. Essas histórias são descritas por historiadores e pesquisadores não cristãos, por isso não há preconceito e muito menos intenções ilegítimas em seus relatos.

A história da tatuagem é importante para nossa reflexão cultural e simbólica, pois “aquele que não aprende com a história tende a errar duas vezes” e a história revela o propósito e razão de ser das coisas na sociedade.

2. Refutando possíveis argumentos:

Tenho ouvido alguns argumentos em defesa da tatuagem, esses argumentos são encontrados em placas, vídeos na internet e em conversas com pessoas que aderiram a moda. O meu espanto é que encontrei cristãos em vídeos no youtube e pelo menos três que me questionaram pessoalmente utilizando os mesmos argumentos. Assim gostaria de expor os argumentos e refutá-los:

I - O primeiro argumento que gostaria de refutar é: “em tempos passados a tatuagem era uma marca rejeitada pela cultura, porém houve mudanças, pois as culturas mudam e agora a tatuagem se tornou algo aceitável e bem visto”.

Resposta - De fato, há mudanças culturais. Em relação a essas mudanças culturais precisamos ser sensíveis e coerentes com o fato de acontecerem alterações devido a mudanças filosóficas e do tempo. A questão é se um cristão pode aceitar essas mudanças simplesmente, sem questionar e criticar. Não seria cristão aceitar essas mudanças sem considerar os motivos e razões das mesmas. O cristão é um indivíduo que foi transformado pelo Espírito e possui a mente de Cristo, por isso como cidadão do Reino ele deve analisar e refletir se as alterações culturais foram promovidas pela presença redentora do Reino ou são alterações que exaltam a corrupção humana, a rebeldia do homem caído e a ofensa ao evangelho.

Os tatuadores tentam convencer sem argumentos que sua profissão é uma arte hoje em dia e não há nada de ruim; mas um verdadeiro cristão precisa perguntar: “em que a tatuagem glorifica a Deus”? ela promove a beleza da Pessoa de Cristo? Essa marca no corpo promove o Reino, a pureza e santidade; promove o evangelho; contribui com a Missão e ainda, é uma marca que torna a pessoa mais semelhante a Cristo ou ao mundo?

II - O segundo argumento mais usado é aquele que fotografei na maior loja de tatuagem da minha cidade e o mais usado entre cristãos na internet: “Não interessa o que a sociedade pensa”.

Essa filosofia de vida é um ultraje ao pensamento cristão. Primeiro porque agride o segundo mandamento: “amarás ao teu próximo” e depois porque não aprendemos assim do Apóstolo inspirado: “E, por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo” (1Cor 8.13). Paulo bem sabia que o ídolo em si e as comidas sacrificadas não significam nada, a tatuagem em si também não significa nada, porém se ao próximo isso é tropeço “nunca mais comerei”. Sabemos que pela história contada acima, a tatuagem é um escândalo no mundo, quanto mais a um cristão que “não é deste mundo”. Por essa razão, o cristão deverá considerar o que dizem, qual a leitura é feita das marcas que ele carrega no corpo. A tatuagem é tão mundana que as instituições não cristãs repudiam e recentemente um homem para ser aceito precisou entrar com recurso na justiça. Nem o próprio mundo sem Cristo considera aceitável. No mínimo, a tatuagem traz desconforto na sociedade e nas Igrejas de Deus.

Alguns pregadores argumentam que o uso da tatuagem não é pecado, mas é resultado de “falta de sabedoria”. Esse argumento diminui a importância da discussão sobre o assunto ou acaba deixando no campo do fórum íntimo, pois não podemos viver pensando no mais fraco ou naquilo que é escândalo ao mundo. Quando a questão é um assunto absurdo ou sem prejuízos creio que não devemos ficar presos a consciência do mais fraco, porém quando se trata de práticas que de fato escandalizam e simbolizam coisas pagãs, sensuais e algo tão sério como rebelião, como é a tatuagem, precisamos refletir. (1Cor 8)

3. Pensando bíblicamente

Praticamente todos os cristãos confessos declaram que a Bíblia é a regra de fé, prática, governo e disciplina; porém alguns não seguem essa confissão na prática. Quando as regras não se ajustam aos seus desejos ou quando precisam de respostas imediatas, a Bíblia deixa de exercer autoridade. Achei curioso quando li um teólogo liberal afirmar que o problema não está na Bíblia; sua autoridade, revelação sobrenatural, verdade, etc. Ele diz: “pessoas modernas querem viver suas vidas, o que significa fazer as próprias regras, tomando um rumo pela vida de escolha própria”. (Don Cupitt)

Se o ser humano não se render à autoridade das Escrituras, seu conhecimento de Deus e suas decisões da vida serão tiradas da experiência e da sua própria cultura; o indivíduo será acomodado a cultura e se tornará refém de si próprio ou de algum sistema absurdo de vida. Seguir a Bíblia, seja no que é claramente revelado ou naquilo que é deduzido dela nos permite conhecer a Cristo, imitá-lo e assim resgatar o propósito de Deus para sua criação. É através de Cristo e Sua Palavra que nós formamos uma “mente evangélica” (Mark Noll) e essa filosofia é a singularidade da cosmovisão cristã.
  
Encontramos nas Escrituras alguns textos que deveriam ser nossa regra de vida. Todos os pensamentos e decisões de um cristão precisam considerar esses textos como fundamentais:

I – 2Cor 3.2. “Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens...”. Algumas pessoas precisam de cartas de recomendação, pois suas vidas não são conhecidas, mas aqueles que são frutos do ministério apostólico suas vidas são para si mesmos uma carta. É fato que as pessoas ao nosso redor estão olhando para nós como uma carta. Para aqueles que convivem conosco basta nosso coração para que percebam Cristo em nós. A pergunta é: como os de fora irão nos ler quando olharem para nós e sem convivência para interpretar, como interpretarão as marcas em nosso corpo. É essa leitura externa que a sociedade em geral faz, razão que justifica um policial militar questionar todas as pessoas na revista, se tem tatuagem ou não; por que fez? E onde fez? As pessoas nos associarão a Cristo ou ao mundo (prisioneiro, heavy metal, punk, etc).

A tatuagem é uma poderosa forma de comunicação. O objetivo daquele que marca o corpo é comunicar alguma mensagem através de si mesmo, tendo como fonte de escrita seu próprio corpo. Talvez o que me chama mais a atenção e não concordar plenamente com aqueles pregadores que somente dizem ser “falta de sabedoria” seja a questão da comunicação cultural. Já ouvi alguns pastores e tatuadores cristãos argumentarem defendendo um sincretismo cultural; ou seja, não havendo nenhum versículo claro sobre isso ou não fazendo nada de mal a ninguém está liberado. Esses irmãos tentam relativizar os símbolos culturais e se apegar as mudanças da cultura. Porém, o sincretismo cultural afeta diretamente a questão da comunicação cultural, afetando o testemunho do evangelho na prática de uma vida cristã mais parecida com o mundo do que com Cristo e Sua Igreja. A tatuagem não faz parte da cultura cristã e não é neutra em sua simbologia cultural; sendo assim, é uma coisa que comunica uma mensagem na cultura.

Como foi demonstrado no capítulo 1 em nossa análise histórica, a tatuagem é um símbolo com significados específicos e nunca na história da humanidade e nem da Igreja esse símbolo foi associado a Deus e aos cristãos. São símbolos culturais que significam rebeldia, culto ao corpo, ídolos pagãos, marcas de alguma facção ou tribo urbana; protesto contra hierarquia ou sistema de autoridade, sensualidade, entre outros. Até mesmo dizeres religiosos, como o nome de Jesus e versículos se tornaram símbolos do sistema penitenciário.[5]Pergunto: Quando as pessoas lerem seu corpo, através daquilo que ele comunica em suas tatuagens, elas te associarão a Cristo? Você estará neutro em uma interpretação que a sociedade fará nas marcas do seu corpo? O sincretismo cultural não conseguirá consistência bíblica e antropológica para defender o uso da tatuagem para um cristão. Meu irmão, você é a carta lida por todos os homens!

Não seria interessante aqui considerar os textos que dizem: “Fugi de toda aparência do mal” (1Ts 5.22)? ou “Não destruas a obra de Deus por causa da comida. Todas as coisas, na verdade, são limpas, mas é mau para o homem o comer com escândalo. É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar [ou se ofender ou se enfraquecer]. A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado”? (Rm 14.20-23) 

II – 1Cor 10.31. “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus, assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos”.

Uma pessoa me procurou e disse: “pastor me dê uma razão para não fazer uma tatuagem”. Pensando nesse texto respondi: “como evangélico você precisa mudar a pergunta; os católicos seguem o “princípio do silêncio das Escrituras”, ou seja, o que a Bíblia não diz claramente eu posso fazer. Porém os protestantes reformados seguem o “princípio da regra de fé e prática”, ou seja, eu somente posso fazer aquilo que agrada a Deus, o que o Criador revelou sobre mim. Então, a pergunta seria: “Há alguma razão em que a tatuagem glorifica a Deus?” Eu estou interessado na glória de Deus ou simplesmente desejo marcar meu corpo porque é legal ou porque “todo o mundo faz?” Será que glorifica ao Criador eu me associar a uma prática que historicamente não é cristã e ainda a história revela que seus propósitos sempre estiveram ligados ao culto pagão, sexualidade liberal, máfias, tribos urbanas, etc. Ainda aguardo uma resposta bíblica que justifique a glória de Deus na tatuagem. Radical né? Pois é! Essa é a razão de alguns abandonarem a Cristo e seguir o “presente século” (2Tm 4.10), o desejo de se ajustar aos padrões desse mundo.

III – “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (1Cor 3.16-17). Há duas expressões no texto que chamam a atenção; primeiro “sois santuários” e depois “é sagrado”. O Apóstolo está chamando a atenção sobre o modo como estamos edificando nossa vida. A exortação acontece em um contexto em que a igreja foi influenciada pelo mundanismo de Corínto; imoralidade, idolatria, partidarismo, sabedoria deste mundo, etc. Por essas razões, foi preciso escrever demonstrando que se de fato são de Cristo, eles não poderiam viver “além de Jesus Cristo” (v. 11), “porém cada um veja como edifica”. O fato do Espírito de Deus habitar em nós garante que não podemos nos associar ao estilo de vida não cristão, somos separados para uma vida consagrada, diferente e não mais na própria sabedoria. Não podemos nos dar ao luxo de desfrutar das “coisas vãs” (1Cor 3.20-21) e nem fazer o que é próprio do homem sem Cristo. “Somos dele”!

IV -  1Cor 6.20. “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo”. Querido irmão, vosso corpo é sagrado. Não sois de vocês mesmos para marcá-lo como se tivesse a liberdade para se escravizar ao mundo não cristão. Agora em Cristo Jesus somos marcados pelo sofrimento da perseguição pelo fato de não nos conformarmos com esse sistema anticristão. Não carregamos no corpo qualquer outra marca “para nos gloriarmos na carne” (Ef 6.13), porém nossa esperança é carregar as marcas de Cristo ((Ef 6. 17). Não nos apresentamos ao mundo, mostrando as marcas desenhadas por um tatuador pagão, mas nos apresentamos a Deus como um culto e cada vez mais parecidos com Cristo, nosso Senhor (Rm 12.1-4).

V – Nossa União com Cristo. “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel” (Êx 19.5-6); “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz...” (1Pe 2.9).

As expressões “no Senhor”, “nele” ou “em Cristo” ocorrem 164 vezes nas cartas de Paulo. Por isso, ele diz: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim...” (Gl 2.20). A nossa União com Cristo determina como devemos ser e as ideias e formas de viver na sociedade. Por Cristo sou liberto do sistema, seja da secularização ou do sincretismo com todas as suas sutilezas e promessas de sucesso e orgulho próprio. Em Cristo podemos oferecer ao mundo uma proposta de vida e de religião que promovem a verdadeira comunhão com Deus, felicidade, justiça e sabedoria. Isso se chama REDENÇÃO. “No Cristo crucificado é que estão a verdadeira teologia e o verdadeiro conhecimento de Deus”. (Lutero)

VI – 2Cor 1.12. “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência (συνείδησις), de que com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas, na graça divina, temos vivido no mundo e mais especialmente para convosco”. Nossa consciência não está fundamentada na libertinagem do que “faço o que quero” ou escrava dos símbolos cravados na tatuagem, não e não! Esse texto nos orienta nessa questão. Vivemos em novidade de vida, com uma consciência cativa a palavra de Cristo e firmada pelos fundamentos da cosmovisão cristã e como cremos na suficiência e autoridade das Escrituras somos guiados pela filosofia reformada.

VII – Rm 11.36. “Porque todas as coisas são dele, por ele e para ele. A ele seja a glória eternamente! Amém”. Pv 16.4. “O Senhor fez todas as cousas para determinados fins...”. 1Cor 7.31. “e os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem; porque a aparência deste mundo passa”.

Há uma regra cristã muito importante a ser considerada nessa questão. É o princípio correto no uso das coisas que Deus criou. A Bíblia nos orienta devidamente sobre a finalidade das coisas e como deveríamos usá-las, isso para a revelação dos ímpios e o louvor dos justos. Os ímpios deturpam todas as coisas e os justos contemplam as belezas e desfrutam dos prazeres das coisas criadas.

Cada coisa foi feita para um fim proveitoso, na prática vê-se que a natureza revela seu propósito nas próprias qualidade naturais que demonstram e os benefícios para a vida e para a glória do Criador. Assim pelas Escrituras e pela razão natural sabemos as finalidades de todas as coisas (ou quase todas) que existem e assim desfrutamos com sabedoria e obediência, caminhando sem apego para o Reino futuro do Nosso Senhor.

Por essas razões, concluo a reflexão desses três versículos, perguntando: historicamente, qual o propósito/finalidade da tatuagem? Para que essa coisa passou a existir? O corpo humano foi feito para ser marcado por uma incisão voluntária? A tatuagem promove benefícios à vida? É necessária a existência humana e a qualidade de vida? Promove a beleza de Cristo? Quais as qualidades naturais que a tatuagem demonstra para que ela tenha um fim proveitoso e glorifique a Deus?

Naquilo que de fato glorifica a Deus podemos dar razão, como muito claramente nos explica o Prof. João Calvino: “Ora, se ponderarmos a que fim Deus criou os alimentos, verificaremos que ele quis levar em conta não só a necessidade, mas também o deleite e gáudio; assim, na indumentária, além da necessidade, foi seu propósito fomentar o decoro e a dignidade; nas ervas, árvores e frutas, além dos variados usos, proporciona a beleza da aparência e a suavidade do perfume. Ora, a não ser que isso fosse verdadeiro, o Profeta não contaria entre as beneficências de Deus “o vinho que alegra o coração do homem”, “o óleo lhe faz resplandecer o rosto” [Sl 104.15]; nem estariam as Escrituras, a fim de enaltecer-lhe a benignidade, relembrando a cada passo que ele deu aos homens todas as coisas desse gênero”. (Inst, III, X, 2)

O ímpio deturpa o uso das coisas criadas e promove outro fim que não é proveitoso: o sexo foi feito para o casamento (adultério); o esporte para a saúde e alegria (UFC); a música para expressar louvor e alegria (Black Metal, Funk, Punk); a religião para comunhão com Deus (idolatria); a consciência para a liberdade de expressão (revolução); a política para a ordem e justiça (injustiça, corrupção); o livre comércio para o direito de propriedade, generosidade e o dom da riqueza (socialismo, egoísmo). O vinho que foi feito para a alegria se tornou na cultura brasileira uma desgraça, a cerveja produzida pelos monges e um ótimo diurético se tornou uma destruidora de famílias. Todas essas coisas foram feitas para a glória do Criador, mas são corrompidas pelo uso não cristão, daí a necessidade de redenção e da prudência em relação ao vinho e cerveja por causa do testemunho.[6] O corpo não foi feito para a tatuagem e a tatuagem não foi feita para o cristão.

Acredito que considerar o fim de todas as coisas é uma boa e sábia filosofia de vida e ter como fundamento a dedução das Escrituras em assuntos não claros é agradável ao Senhor e um prazer de sua soberania.

4. O novo crente e sua antiga tatuagem

Não vejo muitos problemas em relação ao novo crente, talvez apenas um texto já nos orienta: Atos 17. 30-31 - “Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos”. Nossa antiga vida era guiada pelo “príncipe deste século” (Jo 16.11; 2Cor 4.4) que operava em nós (Ef 2.2), agora regenerados pelo Espírito (Ef 2.1; 2Cor 5.17) recebemos nova vida e andamos segundo Cristo e estamos em transformação para que a cada dia sejamos mais parecidos com Ele (Rm 8.14,28-29). Por essas razões, as marcas do velho homem com toda aparência do mundo cravada no corpo se tornou um testemunho de redenção e um meio para que, através dessas marcas o novo crente possa testemunhar em palavras de sua conversão.

É claro que no primeiro momento o novo crente será associado a antiga vida, porém algumas marcas do passado são incorrigíveis. Isso não deve deixá-lo constrangido ou desanimado, mas com o coração redimido e interessado em pregar o evangelho, ele deverá usar essas marcas como oportunidade de fazer o Cristo libertador conhecido em todos os grupos da sociedade.

Agora, convertido e crente ele deverá andar como crente, fazer as coisas de crente e como crente ser parecido com aquele que ele crê. “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia”. (Jo 15.18-19)

5. Jesus Cristo tem tatuagem?

Tenho ouvido algumas pessoas desinformadas usarem um argumento “bíblico” para defender o uso da tatuagem. O argumento é baseado no texto de Apocalipse 19.16: “Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES”.

Refutação bíblica: Um antigo ditado diz: “Um texto fora de contexto é pretexto para heresia”. Considerando as regras de interpretação e o contexto é preciso considerar duas coisas: em primeiro lugar o versículo anterior e posterior revelam que a linguagem é simbólica. O versículo 15, diz: “Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações...”. Seria possível alguém acreditar que literalmente sai uma espada de aço ou de ferro da boca de Jesus? Acho que nem no circo alguém acreditaria nisso. É um símbolo que representa o juízo de Deus pela Palavra. Em segundo lugar, símbolo cravado na coxa ou em uma tradução mais literal; “nas vestes sobre a coxa”, é uma demonstração simbólica de soberania, controle e governo sobre tudo e todas as nações. Nos versículos posteriores encontraremos sua soberania na guerra contra os poderes do Maligno e os Reis que se acham poderosos.

Em nenhum momento há evidência de ser uma marca física literal, também é preciso considerar que o texto descreve o Jesus vitorioso, juiz e não é um texto normativo, doutrinário que autoriza os cristãos a marcarem seus corpos, seguindo o exemplo dos pagãos. Não e não!! O texto não fala sobre tatuagem e muito menos oferece um salvo conduto para o cristão se parecer com o mundo.

As únicas marcas no corpo que Nosso Senhor carrega são as marcas físicas da cruz. Ele foi definitivamente cravado pelos nossos pecados, moído e marcado para que como cordeiro de Deus tirasse nossos pecados e assumisse nosso lugar de condenação e morte. Jesus é tatuado sim, com as marcas do sofrimento e agonia; as marcas da paixão. Não foi e não será cravado pelas agulhas de uma filosofia de vida pagã, rebelde e mundana; pois todas essas coisas se tornaram malditas nele para nossa libertação e novidade de vida. A cruz continua sendo maldita e uma lembrança de que lá Ele levou sobre si nossas transgressões. A cruz de Cristo é a única marca física que o Senhor levará para sempre sobre si.

Conclusão:

1Cor 6.12. “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas”. Mediante todas as informações históricas e reflexão bíblica eu concluo que a tatuagem é incompatível com a fé cristã. Não creio que convém a um servo de Cristo se deixar dominar por essa prática pagã. De minha parte, não me deixarei dominar por coisas que não edificam a igreja e muito menos por aquilo que pode constranger ou escandalizar o evangelho. Prefiro me guardar de qualquer prática que está diretamente associada aos grupos ilegais de prisioneiros, as tribos urbanas, máfias japonesas ou até mesmo a aqueles jovens que se rebelam contra os pais, pastores e autoridades civis. O mesmo princípio e reflexão bíblica eu aplico para a maçonaria, ingerir publicamente bebida alcoólica, festa de halloween e junina, uso de drogas e outras coisas impiedosas.

Finalmente, aos meus leitores e amigos, tatuados ou não; meu amor, carinho e todo o respeito que lhe são dignos. Nunca faltarei com respeito e cordialidade a qualquer pessoa que seja. Somente a Deus toda a glória!     


[1] Para propósitos missionários ou aquela mãe que perdeu o filho e no auge do sofrimento tatua o nome da criança para lembrá-lo para sempre, etc.
[4]http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI132738-17770,00-CONHECA+A+HISTORIA+DA+TATUAGEM.html
[5] Basta fazer uma rápida pesquisa na internet ou em revistas especializadas que o leitor encontrará esses símbolos e seus significados. Ex: https://noticias.terra.com.br/brasil/policia/pm-desvenda-significados-de-tatuagens-no-mundo-do-crime,7b4bfce66b23b410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html
[6] O uso dessas coisas em si não é pecaminoso, porém devido aos desvios e a leitura da sociedade é recomendado que o cristão são seja dado a essas coisas e principalmente não participe na mesa dos ímpios no uso público. O não se dominar revela imaturidade e desqualificação ao ministério cristão, aquele irmão que é dado a essas coisas não pode exercer o presbiterado e nem um tipo de liderança pública na igreja.