26 de abril de 2013

Teologia da Libertação (Breve artigo)


INTRODUÇÃO
A década de 1960 é uma década bastante importante para a história da igreja na América Latina, os conflitos militares com seus golpes e o aumento da injustiça social estão chegando a um nível surpreendente. Os habitantes do continente Sul-americano estão começando a viver uma etapa desesperadora em suas vidas, a cada momento surgem notícias de surgimento de comunidades novas que estão ficando a margem da sociedade, aumenta a migração do campo para a cidade e as famílias que tinham uma estrutura firmada em seus valores éticos e tradicionais estão se perdendo diante de mudanças cada vez mais rápidas.

Esse período também é marcado pelo início das imigrações de estrangeiros que fugindo de seus países em busca de uma vida melhor e emprego embarcam para a América, inclusive o Brasil. Esses grupos iniciam suas colônias ou comunidades étnicas e fazem parte de uma classe de pessoas que são objetos de exploração e humilhação por parte das classes dominantes.

É neste contexto que surge uma “nova abordagem na teologia”. Alguns teólogos que insatisfeitos com os métodos tradicionais começam a desejar o que é chamado de teologia contextual. Nessa perspectiva alguns conseguem enxergar uma falha na teologia, eles vêem que a teologia até o momento é muito teórica e não consegue alcançar seu objetivo e promover mudanças na sociedade, melhorando a vida das pessoas oprimidas, argumento semelhante aos do Pietismo.

A teologia convencional é imposta pela cultura européia ou vinda do “atlântico norte”.  Assim a partir dessas necessidades e das experiências com povos menos favorecidos surge uma nova reflexão sobre teologia e prática (práxis).
Segundo o Dr. Jung Mo Sung, um teólogo católico e Professor da Universidade Metodista “essa prática nasce de uma experiência com o pobre, experiência que cria uma indignação e que pede uma ação em favor do necessitado”.

Essas experiências e desafios no contexto de pobreza conduzem esses teólogos a uma reflexão bíblica não a partir da dogmática ou outros sistemas de teologia, mas a partir dessas experiências e de um estudo mais detalhado das ciências sociais e da convivência com esses povos oprimidos. Através dessa abordagem nasce na América Latina a teologia da libertação.

Uma teologia que brota de um contexto de pobreza já era elaborada sem reconhecimento por Richard Shaull, um teólogo protestante e missionário, com sua teologia da revolução, onde Shaull elabora uma mudança cultural no contexto sócio-político da sociedade. Shaull quando era Missionário na Colômbia teve um encontro marcante com o Marxismo, encontro através de leitura e que segundo ele mudou sua vida.  Porém o grande nome da teologia da libertação é Gustavo Gutiérrez, um teólogo católico e muito envolvido em questões sociais, veremos mais a seguir.
 
ENTENDENDO A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
A teologia da libertação tem muitas faces, alguns preferem chamar de teologias de libertação, pois cada “escola” tem sua própria metodologia e interpretação, porém todas essas manifestações giram em torno de um mesmo propósito; a libertação sócio/política do oprimido. Alguns ramos mais tradicionais católicos ou protestantes trabalham com uma definição mais abrangente de libertação sócio/político/religioso.

Uma definição bastante interessante de teologia da libertação é caracterizada por Rubio:
“A teologia da libertação é um movimento que visa à unidade da ação humano-cristã na situação atual de dependência e subdesenvolvimento injusto da América-Latina, envolvendo observações e julgamentos e procurando conscientização e eficácia. A teologia da libertação é, portanto, uma interpretação dos sinais dos tempos devidamente escolhidos, como são todos os sinais dos tempos que tende a uma profunda modificação das estruturas econômicas e sócio-políticas, a fim de que o homem esmagado e explorado, marginalizado e faminto, do continente, venha promover-se homem livre”.
Podemos definir a teologia da libertação como um movimento que decide levar sua ação pastoral optando pelos pobres, a mesma não é um compendio de dogmas e discussões teológicas, mas uma teologia práxis que visa uma teologia teórico/prática.

Sendo definida como um movimento, há quem considera a teologia da libertação como um profetismo que denuncia as injustiças e opressões ao ser-humano.

A teologia da libertação se da em paises chamados terceiro mundo, esses são paises que clamam por uma ação pastoral mais efetiva devido às explorações pelas grandes potencias. Essa Teologia inicia-se de uma reflexão latino-americana sobre a realidade e a ação pastoral, buscando uma espécie de revelação, porém essa revelação não é algo sobrenatural entregue por Deus, mas uma revelação que parte da experiência com o pobre e sua busca por libertação.

A teologia da libertação pode ser definida também a partir de uma reflexão de Igreja/Reino de Deus. Alguns teólogos levam isso muito à sério principalmente aqueles que acreditam ser a igreja o reino de Deus, para esses a teologia da libertação foi à busca por estabelecer o reino de Deus e expandir o reino ao mundo através da libertação sócio/política. Para outros como no caso de Leonardo Boff a igreja tem a mesma missão e mensagem de Cristo que vai aos poucos realizando o reino de Deus no meio dos homens, até chegar a sua plenitude.

A busca pelo reino de Deus na teologia da libertação não é algo futurístico e passível, mas um acontecimento presente que vai aumentando na medida que a libertação se realiza.
Portanto a teologia da libertação deve ser vista como uma busca de libertação com opção pelos pobres que se da na realização sócio/política/religiosa. A teologia da libertação não trabalha para libertar em si, mas para que o oprimido busque sua própria libertação, através do Cristo Libertador e ações sociais.

UMA PERSPECTIVA CATÓLICA
O nome conhecido com fundador ou mentor da teologia da libertação é Gustavo Gutiérrez, um teólogo peruano e sacerdote dominicano.
A teologia da libertação liderada sob Gutiérrez é tremendamente influenciada pelas reações sóciais de Kant, Hegel e Marx, também recebeu no inicio forte influência da teologia política européia. Esse contexto levanta vozes como J.B.Metz, Molltman e Harvey Cox que com suas criticas a teologia existencial lançam uma nova reflexão sobre o pensamento sócio/político. Todas essas questões vão atingir Gutiérrez em sua abordagem teológica e a maneira como vai direcionar sua vida prática como cristão.
Gustavo Gutiérrez define sua teologia como “a reflexão crítica sobre a práxis histórica”. Isso quer dizer que uma teologia exige que o teólogo esteja engajado na sua própria história intelectual e sócio/política.

Para Gutiérrez a teologia não é um processo repetitivo da sistematização de dogmas e verdades apologéticas, mas uma abordagem práxis que significa uma formulação teológica a partir de seu contexto histórico e social.

Essa maneira de fazer teologia muda completamente à realidade teológica, agora a interpretação teológica não vai favorecer o capitalismo como vinha sendo, porém irá levar em consideração seu contexto e as necessidades do ser humano. Para Gutiérrez a teologia como era feita queria manipular Deus e favorecer os mais “fortes” na sociedade.

A força da teologia da libertação é a compaixão pelos pobres e Gutiérrez com essa abordagem teológica conquista campo e “adeptos” por todo o continente.
O mais interessante não são as doutrinas da teologia da libertação, mas o método usado e como é realizada sua teologia que é a proposta desse trabalho na perspectiva católica. Esse método de Gustavo Gutiérrez vai influenciar os demais teólogos que virão e irá direcionar a teologia da libertação em sua “fundamentação bíblica”.

É importante notar que esse método não parte da leitura das Escrituras, mas da experiência com o pobre e a maneira de teologar é bastante aceita pelos teólogos mais liberais e rejeitada por fundamentalistas tanto católicos como protestantes.

Leonardo Boff é outro teólogo importante para a perspectiva católica. Boff é muito realista em sua teologia da libertação, expressão que ele prefere chamar de Teologia do Cativeiro. Boff afirma que é necessário o mínimo da realidade e reflexão para estarmos aptos a dialogar acerca da teologia da libertação.

Para Boff a teologia da libertação deve ser pensada e vivida a partir de uma condição de cativeiro estabelecida com as injustiças, desigualdades, sistemas políticos ditatoriais, etc. Essa teologia não nasceu voluntariamente, mas de uma conscientização características de povos latino-americanos, com essa visão Boff chegará a pensar que a teologia da libertação é autônoma.

A teologia da libertação para Boff nasce de uma voluntariedade, porém de uma profunda experiência espiritual: a sensibilidade e o amor pelos pobres, que compõem as grandes maiorias de nosso continente. No fundamento da teologia da libertação encontra-se algo místico: “o encontro com o Senhor no pobre, que hoje é toda uma classe de marginalizados e oprimidos”, essa é uma linguagem bem característica de Boff. Assim também se expressa o professor Jung Mo Sung que diz sobre a indignação que surge no ser humano quando se encontra com o pobre, esse encontro produz duas reações, uma de abandono ou outra de ação em favor do pobre.
É com essa práxis teológica que Boff elabora sua teologia e formula suas doutrinas de salvação e eclesiologia, uma pesquisa que proponho para um trabalho futuro.

UMA PERSPECTIVA PROTESTANTE
A teologia da libertação é vista em geral como uma teologia católica, porém seu início como teologia não se deu no catolicismo. Essa abordagem teológica contextual se inicia com o teólogo e missionário protestante Richard Shaull.

Shaull inicia suas reflexões através de sua experiência missionária na América do Sul, ele propõe uma maneira de libertação muito interessante, devido suas experiências com pobres na América-Latina. Shaull vem de um contexto bastante pobre nos Estados Unidos, país onde nasceu e estudou.
Nosso teólogo deixa muito claro que seus pensamentos são tremendamente abalados quando ele tem um encontro prático com o marxismo, Eduardo Galasso diz: “É provável que a questão mais decisiva enfrentada por Shaull e que o desafiou como nenhuma outra tenha sido, no final da década de 50 e inícios de 60 em sua atividade na UCEB e ISAL, a de reexaminar seu pensamento sobre a relação entre a fé cristã e o marxismo”.

Para muitos o marxismo é algo abominável e simplesmente um movimento anticristão, mas para Shaull mesmo não concordando com muita coisa do marxismo ele se vê muito desafiado por questões levantadas pelo marxismo e suas palavras mostram seu sentimento e sua coerência em assuntos como esse, ele afirma: “meu encontro com o marxismo não estava fazendo de mim um marxista, mas um cristão melhor”.

Através dessas experiências teremos mudanças nos pensamentos de Shaull, que veio florescer através de sua teologia da revolução. Com uma influência do marxismo ele via que a única possibilidade de libertação do oprimido era por uma revolução, mas apesar do que muitos pensam revolução no pensamento de Shaull tem uma nova perspectiva. Ele não queria travar uma revolução armada ou de classes, mas para Shaull a libertação começaria quando houvesse uma revolução cultural.

Para ele não havia como ter mudanças pelos partidos de esquerda ou pela alienação marxista, mas teria que ser um processo complexo, envolvendo as instituições. É preciso lembrar que Shaull além de teólogo era sociólogo, então com certeza sabia para onde queria ir.
Para Shaull a comunidade é essencial nesse processo, pois sua comunhão criada pela fé em Cristo é um elemento que cria relacionamentos responsáveis mútuos, fazendo uma com que as pessoas se envolvam politicamente e proporcionem justiça e solidariedade. Shaull valoriza muito a comunidade no processo de revolução ou libertação e isso se expressa em seu trabalho na UCEB:

“... a idéia sobre a importância crucial da comunidade. Para mim, a fé cristã era uma questão de qualidade de vida em relacionamento, a qual só pode ser experimentada se for vivida. A UCEB oferecia o contexto no qual essa teoria poderia transformar-se em realidade, especialmente depois que seus membros se tornaram politicamente ativos”.

Assim como Leonardo Boff, Shaull via na comunidade uma manifestação ou sinal do reino de Deus que trazia qualidade de vida as pessoas, algo que o marxismo e nenhuma outra entidade poderia proporcionar. Quando ele vê as pessoas empolgadas com o marxismo e começam a deixar a igreja, Shaull enxerga a necessidade de mudar as estruturas da igreja a fim de agir em favor dos necessitados.

Shaull estabelece uma idéia de comunidade e reino de Deus que para ele é imprescindível a fim de proporcionar a revolução, sua idéia é que o reino de Deus está acima de qualquer ordem política e social e que “através da participação em comunidade que, orientada pela revelação de Deus, estará envolvida também no mundo onde ele está agindo”.

Para nosso teólogo a igreja quando deixa suas estruturas rígidas e se envolve com a sociedade causa revolução, assim ele vê as revoluções na história como exemplo dessa possibilidade, como exemplo a revolução puritana inglesa que contesta as estruturas da sociedade. Shaull também consegue dialogar com o pentecostalismo a qual ele vê uma possibilidade de envolvimento maior com o pobre, para Shaull o pentecostalismo é algo bom e com grandes chances de lutar contra a pobreza e desgraça na sociedade. O pentecostalismo não aceita a pobreza e precisa usar isso como forma de libertação valorizando a vida.

A vitalidade da fé em pessoas pobres e envolvidas no pentecostalismo tem um poder transformador muito grande, e esse movimento se adaptou de forma surpreendende em comunidades pobres.

Rubem Alves é outro nome importante na perspectiva protestante, sua tese sobre “Towards a Theology of Liberation” foi uma meditação sobre a possibilidade de libertação. Alves foi tremendamente influenciado por Shaull, algo que ele expressa dizendo “que o encontro com Shaull foi um divisor de águas em sua vida”. Alves havia chegado a conclusão que teologia não é uma busca pelo conhecimento de Deus, seus estudos sobre Moltmann o fizeram a crer que a teologia da esperança era algo poético e não trazia nada para a realidade.

Para Alves essa esperança ardia em seu coração e, portanto, precisava se transformar em algo real e envolver a política. Para Alves a teologia se transformando em política era trazer os céus a terra, ou seja, o Reino em forma real mudança à estrutura e realizando libertação, uma esperança em movimento, lutando por um futuro, por uma libertação.

Na perspectiva protestante o movimento não teve tanta expressão e repercussão, porém os nomes envolvidos são importantes para uma reflexão abrangente sobre o tema, todos esses teólogos viam na bíblia uma revelação de um Deus libertador, que rompia na história quando ouvia o clamor dos oprimidos e realizava libertação através de meios sociais e políticos.

A teologia da libertação é bem expressiva na Igreja Romana e bem pouca apreciada em grupos evangélicos, mesmo que o advento da Missão Integral esteja sendo útil para o diálogo entre as partes.

CONCLUSÃO E NOTA PESSOAL
A teologia da libertação é um movimento desafiador, nesses estudos podemos perceber um profetismo bastante sério que denuncia as injustiças e explorações aos pobres, àqueles que aderem ao movimento são militantes e buscam realmente uma justiça, mas ao mesmo tempo vê-se muita “filosofia” e pouca ação. Essa realidade fez alguns dos teólogos citados abandonarem a teologia e agora se dedicarem ao mundo da ficção e fantasia.

Precisamos pensar com carinho e avaliar com cuidado nossas conclusões sobre esse movimento, pois se cremos na revelação e buscamos andar conforme à vontade de Deus não podemos esquecer que Deus é o Deus dos pobres.
Muitas vezes na história do povo de Deus, Ele deixa clara sua preocupação com os marginalizados e exalta aqueles que lutam por suas causas. É com esse cuidado que precisamos estudar a Teologia da Libertação e fazer nossas críticas.

A teologia da libertação estabelece um padrão para sua teologia, que diferentemente da dogmática não está tão preocupado em partir da leitura da Bíblia, mas sua teologia acontece da experiência com o pobre e de uma ação baseada nas comunidades pastorais. Para muitos a teologia da libertação fracassou e agora é a hora de buscar uma nova visão para o movimento, os teólogos antigos praticamente abandonaram sua luta teológica ou mudaram seu foco.

A crítica que deve ser feita é que sua hermenêutica não considera a Escritura como revelação e inspiração. Os teólogos da libertação estão mergulhados nos pressupostos marxistas e no método histórico-crítico de interpretação, sempre sugerindo uma nova leitura da Bíblia ou seu abandono na prática. O existencialismo é o ponto de partida na Missão e a tentativa de libertação acaba se tornando em utopia e inserção na realidade do pobre, está não garante a libertação e nem mesmo uma transformação, mas apenas uma super-valorização de algumas classes sociais em detrimento de outras e uma luta social e política.

Entendo que a verdadeira libertação da opressão e da injustiça é levar o ser humano à Deus, isto através da pregação do Evangelho e do discipulado verdadeiro, formando pessoas semelhantes à Cristo e estabelecendo comunidades transformadas para o culto à Deus e comunhão dos filhos de Deus. Nossa militância em prol da justiça e libertação plena (salvação e social), acontece na priorização da pregação da Escritura e no serviço da Igreja, no qual Cristo faz todas as coisas.
Talvez a perspectiva mais próxima do que relatei seja a Teologia da Missão Integral, porém esta, partindo da Escritura e não como alguns já buscam, através do diálogo ecumênico. O diferencial é a Escritura ou o Cristo revelado na Escritura e não o pobre ou qualquer marginalizado.

Qualquer teologia que não parte da revelação, retira a glória de Deus e a transfere ao homem, por isso concluo afirmando que “Somente a Deus Glória!

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